Especialistas alertam que felicidade exposta nas redes sociais não pode ser referência

Período de Natal e Ano Novo evoca lembranças tristes e agrava quadros depressivos

Especialistas alertam que felicidade exposta nas redes sociais não pode ser referência

Foto: ARQUIVO PESSOAL - Legenda: Psiquiatra Marina Toscano orienta olhar para as redes sociais com mais critério

Guilherme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 25/12/2021

A época do Natal e Ano Novo influencia o emocional de algumas pessoas. São momentos de comemoração que sugerem o encontro familiar, algo que, obviamente, não é a situação vivida por todos. Nas redes sociais, a felicidade plena exposta em fotos e vídeos acaba por agravar ainda mais a compreensão das coisas daquele que, de alguma forma, está sofrendo.

“Essa data do Natal é difícil especialmente para esse público, porque muitas vezes a pessoa revive algum luto, a perda de alguém da família ou simplesmente não está bem. E ainda sentindo essa pressão social de vamos montar a árvore de Natal, de ter que estar com a família reunida, de estar todo mundo feliz e contente”, aponta a psiquiatra Marina Toscano.

As lembranças tristes evocadas nesse período natalino são outro agravante, na visão da psicóloga Lilian Buniak. “Quando você encontra a família, isso pode te sugerir muitas coisas, tem pessoas que às vezes aquele individuo não se dá muito bem, ou a pessoa se dá bem com os familiares, mas lembra de alguém que não está mais presente – principalmente nessa época de pandemia vai ter muita gente nessa situação porque perdeu os entes queridos por Covid.”

Outra situação, psicologicamente falando, é que o Natal pode trazer à tona lembranças da infância querida que já se foi. “Muitas vezes a pessoa fica triste com aquilo, aqueles momentos, aquela lembrança, aquela casa onde ela não mora mais, que fez parte da sua infância ou adolescência, de situações que foram modificadas e que não voltam mais”, acrescenta Lilian.

Para completar, apontam as duas especialistas, muitas pessoas já estão depressivas por outros motivos e essa depressão, junto com esses sentimentos emocionais inflamados pelo período de Natal e Ano Novo, podem ampliar o sofrimento e a tristeza.

Marina Toscano relembra que existem no mundo, segundo as estimativas, 350 milhões de pessoas deprimidas e que o Brasil é o 5º país com maior incidência dessa doença. “Então com certeza na sua volta tem alguém com quem você convive que esteja enfrentando a depressão, com envolve sintomas como tristeza, falta de energia, desânimo e falta de prazer nas coisas.”

REDES SOCIAIS

Muitas pessoas estão adoecendo ou têm sua saúde mental agravada por causa das redes sociais, o que tende a piorar nesse período festivo. Elas ficam comparando suas vidas com o que está sendo exposto nas páginas das outras pessoas, sejam famosos, parentes ou amigos – e não conseguem ver que aquilo que está na tela do computador nem sempre é a realidade.

“Quando a gente fala assim: é Natal, Ano Novo, vamos ver como vai ser o ano que vem, se você vai fazer planos, mas sua situação econômica não favorece muitos planos, então isso já te deixa abalado. Aí você entra em uma rede social de pessoas que estão em uma situação mais favorável, isso te deprime, deixa angustiado, então claro que você vai chegar ao Natal e Ano Novo achando que é tudo uma droga, porque você projeta a sua vida em relação àquilo que você vê do outro”, explica Lilian.

A psicóloga diz que, se as coisas já estão ruins, com o poder desse pensamento, é possível fazer com que tudo fique pior ainda, levando a pessoa a passar Natal e Ano Novo extremamente nervosa, angustiada e triste, às vezes não vendo saída para determinados tipos de situações.

“As redes sociais quando em exagero ou quando a pessoa fica tentando equiparar a sua vida com a vida de um artista, parente, pessoas que ela observa e que estão se dando bem, e que você não está, é sempre nocivo”, sentencia.

COMO AGIR

Para a psiquiatra Marina Toscano, uma recomendação básica é se afastar das redes sociais ou olhar para as redes sociais com um pouco mais de critério. “Nem tudo que você está vendo é real, ninguém posta coisas negativas e tristezas, as pessoas só postam momentos bons. Sempre falo para meus pacientes: o que você está vendo ali é uma foto e não um filme. Você vê a foto daquele momento, mas você não sabe o que a pessoa está passando em todos os outros.”

Ela lembra que é essencial também que a pessoa procure um especialista para tratamento e tente não se iludir com a felicidade exagerada que, na verdade, não existe na vida de ninguém.

“Nessa época, se puder ficar longe das redes sociais, é melhor. É melhor aproveitar momentos internos, consigo mesmo, fazer planos para o futuro, não envolvendo o que você vê do outro, mas sim o que você mesmo sente. É a questão do que você quer, qual o seu planejamento, qualquer pessoa pode se dar bem, desde que ela planeje a situação”, completa Lilian.

A psicóloga orienta a seguir a própria essência. “O que você quer na sua vida. É só você que pode pegar e executar. Ninguém mais vai executar coisas para você. Tudo depende de você, do seu pensamento, daquilo que você está buscando. Se você quer realmente buscar alguma coisa, busque dentro do seu coração e não em relação ao que os outros estão oferecendo. Quem tem que oferecer alguma coisa a você, é você mesmo.”