Três em cada quatro docentes já presenciaram discriminação no Ensino Fundamental

Levantamento ouviu docentes das principais cidades paulistas, inclusive de Catanduva

Três em cada quatro docentes já presenciaram discriminação no Ensino Fundamental

Foto: Moacyr Lopes Junior - 25% dos docentes dizem sempre presenciar casos de racismo em suas escolas

Da Reportagem Local
Publicado em 02/11/2021

A discriminação é uma realidade no ambiente escolar, estando presente em maior ou menor grau nas várias dimensões de vivência de docentes e estudantes. As vítimas apresentam frequência variada. Os mais diferentes estereótipos culminam em atos e falas explícita ou implicitamente preconceituosas, que podem levar até à evasão escolar e abandono da docência.

Esse é o quadro mais geral do levantamento realizado junto a docentes do Ensino Fundamental I e II de cidades paulistas, entre elas as quatro mais populosas do Estado – São Paulo, Guarulhos, Campinas e São Bernardo do Campo. Também participaram educadores de Andradina, Catanduva, Diadema, Francisco Morato, Marília, Mauá, Pindamonhangaba, Ribeirão Preto, Santos, Sorocaba e Suzano. Especialistas foram ouvidos na fase qualitativa da pesquisa.

A pesquisa intitulada 'Percepção de docentes sobre a reforço de estereótipos discriminatórios na prática do ensino fundamental público' foi realizada pelo Datafolha, a pedido da Associação Mulheres pela Paz, ONG fundada em 2003, voltada para a equidade de gênero e suas interseccionalidades. O apoio é da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, por meio de uma emenda parlamentar da deputada federal Luiza Erundina (Psol).

A escola pode reforçar estereótipos – sexistas, racistas, LGBTfóbicos, gordofóbicos, etc. –, mas

é também um espaço privilegiado para a desconstrução das discriminações. Entre as evidências da pesquisa, destaca-se o fato de que não há como a escola sempre estar preparada, mas há como a escola sempre estar ativa e trabalhando para encontrar caminhos, para ser sempre um ambiente plural e democrático, onde se respeita porque se é respeitado e onde se educa integralmente, não apenas na transmissão de conhecimentos de um leque de disciplinas.

Ficam apontadas como principais demandas a necessidade de se trabalhar, concomitantemente, a formação de docentes, seja diretamente relacionada aos temas que suscitam discriminações, seja na atualização de como as disciplinas podem ser lecionadas de forma a contribuir para a desconstrução das discriminações; o estímulo ao diálogo entre estudantes para que eles/elas mesmos/as possam ser agentes da transformação da educação; o alinhamento institucional do sistema educacional e, por fim, a aproximação do diálogo com as famílias e as comunidades.

Segundo análise de Vera Vieira, coordenadora da pesquisa, “para se avançar no árduo processo de desconstrução cotidiana das discriminações entre as pessoas – principalmente as sexistas, racistas e LGBTfóbicas, já que são os fatores que vão influenciar sobremaneira as assimetrias de poder e oportunidades no transcorrer da vida, impedindo o avanço da luta pela conquista de uma sociedade pacífica, justa e equitativa –, faz-se necessário identificar e trabalhar as barreiras invisíveis que influenciam o dia a dia nas principais rede de relações, como a escola, a família, a igreja, as mídias, levando em conta principalmente os vieses inconscientes, que são as barreiras invisíveis dos preconceitos”.

Segundo a pesquisadora, além das desigualdades de poder e oportunidades entre as pessoas, tais assimetrias são responsáveis por estatísticas assustadoras de violência contra mulheres e meninas (agressões, estupros, assassinatos, feminicídios), incluindo os recortes de raça e identidades de gênero nessas vítimas.

“Ninguém nasce com preconceito e com tendência à discriminação. Trata-se de uma construção social, que é reforçada pela cultura e vem sendo mantida historicamente, nos diversos âmbitos da vida pública e privada. Se é uma construção, pode ser descontruída. São as pequenas ações do cotidiano que vão ajudar nesse árduo processo. É pelo trabalho educativo, que transforma seres humanos em agentes políticos, que se consegue alterar os condicionamentos provocados por mitos e imagens presentes nos vieses inconscientes, com a certeza da capacidade de reflexão das pessoas”, completa.

Números

Entre os principais resultados, a pesquisa apontou que 74% dos docentes já presenciaram atos ou falas discriminatórias contra alunas e alunos; 25% dizem sempre presenciar casos de racismo em suas escolas, 23% são testemunhas frequentes de gordofobia e 19% presenciam sempre a homofobia; 53% já presenciaram casos de evasão escolar de estudantes após serem vítimas de discriminação; e 25% avaliam, com base em suas experiências, que discriminações por raça/cor, local de moradia, condição social e sexualidade são muito frequentes no ambiente escolar.

Outros pontos levantados são relacionados aos próprios docentes: 50% deles já foram vítimas de algum tipo de discriminação – entre docentes pretos e pardos esse índice é de 60% e, entre brancos, 43%; 31% dos docentes pretos e pardos já foram vítimas de racismo; e 39% nunca participaram de uma formação voltada a lidar com práticas discriminatórias.