Vinil: o ‘bolachão’ que nunca saiu de moda

Colecionadores e vendedores de vinis de Catanduva reforçam a importância do formato

Vinil: o ‘bolachão’ que nunca saiu de moda

Foto: DIVULGAÇÃO - "O pessoal diz ‘a volta do LP’, mas na verdade não, ele nunca deixou de existir", diz Banhos

Guilherme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 13/12/2021

Quando a Mercadiscos abriu suas portas no Mercadão de Catanduva em 1972, há quase 50 anos, os discos de vinil e as fitas cassete dominavam o mercado da música. A venda de conjuntos integrados, os 3 em 1, com receptor FM, toca-discos e gravador cassete era o ponto forte, até a chegada do CD ao Brasil em 1987, tomando o espaço de seus antecessores nos anos 90.

Vinicius Lisboa da Silva, proprietário da Mercadiscos, lembra bem dessa fase. Ele começou a trabalhar com discos de vinil em 1983, com sua mãe, e conduz o negócio familiar até hoje. “O vinil faz parte da minha vida e da vida de muita gente que gosta. Sempre mantive os discos na loja, mesmo depois que parou a fabricação no Brasil, e estamos nesse mercado até hoje.”

O comerciante diz que quem gosta do bolachão preserva sua coleção pessoal. “Quando os CDs avançaram no mercado, muita gente se desfez dos discos para comprar CDs, mas quem sempre gostou do vinil manteve sua coleção guardada, bem cuidada, junto com os toca-discos.”

Segundo ele, o mercado de vinil cresceu nos últimos anos, aliado ao lançamento de toca-discos modernos e com gravadoras soltando produções antigas que marcaram época. “A gente passou a vida inteira trabalhando com discos, está na vida da gente. Tudo que sei, aprendi, foi através da música. Devo muito ao disco de vinil, à fita cassete, mesmo ao CD e DVD”, enaltece.

Para o historiador, colecionador e vendedor de discos Fernando Banhos, da loja de antiguidades Café com História, o LP nunca saiu de moda. “O pessoal diz ‘a volta do LP’, mas na verdade não, ele nunca deixou de existir. Teve um tempo que ele ficou com a produção estacionada, mas para os colecionadores ele continuou sendo a principal fonte de escutar música.”

Amante do vinil desde criança, Banhos relembra que, em sua infância, mesmo com a chegada do CD ao mercado, os LPs e os toca-discos tinham preços mais acessíveis. Foi uma fase que, apesar dos atrativos do novo disco compacto, os LPs se sobressaiam pela questão financeira.

“De uns tempos pra cá, houve a procura pelo LP por pessoas que não viveram, não pegaram o período do vinil. Então surgiu o interesse desse pessoal em ter os discos, até por conta da qualidade sonora, do apelo gráfico de uma capa maior, de você visualizar os desenhos. É um mercado em expansão. Essa juventude está procurando colecionar discos de vinil”, diz.

Falando como colecionador, Banhos lamenta a alta dos preços. “Infelizmente para o colecionador mais novo que quer ter o disco, ele acaba não conseguindo ter um LP original de época, assim como o colecionar deixa de ter a oportunidade de ter novamente o disco que teve no passado, justamente por conta do preço. Tem LPs que passam fácil de mil reais.”

Tradicional nos LPs originais de época, a frase “disco é cultura” é relembrada pelo historiador Fernando Banhos. Ele frisa que, ao falar sobre os bolachões, fala-se sobre cultura. “Estamos divulgando cultura, falando de cultura, consumindo cultura. E é o que a gente precisa, ainda mais em um país como o nosso, que está atravessando um momento muito complicado, que está faltando cultura. Lembrar dos grandes cantores, recordar um momento especial, é sensacional.”

Quem também se divide entre colecionar e vender discos é Laércio Fernando Doro, proprietário da loja Underground. “Somos em cinco lá em casa e todos temos nossas próprias coleções de vinil. Nunca fui para a onda de CD, outras plataformas, sempre fui fiel ao vinil. Mesmo quando ele foi esquecido pela maioria, continuei fiel e sou até hoje”, declara o amante do rock n’ roll.

Doro diz que, em sua loja, há discos de todos os estilos, mas que rock e MPB são o carro-chefe, tanto para compra, venda e troca de discos. A maioria dos compradores, diz, tem entre 20 e 30 anos. “Essa molecada abraçou a ideia do pai, do tio e do avô e foi para a onda do vinil, um formato que não vai morrer nunca. Tanto que os outros caíram por terra. Os CDs se tornaram obsoletos, só o vinil que não tem como chegar ao som dele, é insuperável, é o formato definitivo da música.”

TOCA RAUL!

Catanduva tem um colecionador e divulgador da obra do cantor e compositor baiano Raul Seixas reconhecido nacionalmente. É Nivaldo Rodrigues, o Pachá, que contabiliza mais de três mil discos em sua coleção, percorrendo variados estilos, com destaque para a MPB dos anos 60 e 70. Ele diz que a paixão pelo formato é fruto da convivência vivenciada desde a infância.

“Não me lembro de algum momento da minha vida onde não tinha essa mídia física em casa. Sempre convivi com o vinil, meus pais eram apreciadores de música e óbvio que na época deles era o vinil. Herdei a coleção dos discos da família, recebi doações de amigos e fui adquirindo”.

Apesar do grande volume, Pachá tem Raul Seixas como foco principal. “É um roqueiro tido como um pioneiro do rock nacional, iniciou sua carreira ainda nos anos 60 e teve uma carreira meteórica, atingiu o sucesso no meio da década de 70 e veio a falecer em 89, uma carreira curtíssima, mas deixou um legado, uma história muito bonita dentro da música brasileira”.

VINIL EM CATANDUVA

O historiador Fernando Banhos analisa que o mercado de vinil em Catanduva é impulsionado pelo movimento do rock. “Em Catanduva, o rock sempre foi um estilo muito forte. E a galera que aprecia e curte é um público muito fiel. Inclusive na questão dos LPs.”

O estudioso pondera, entretanto, que nem todos os amantes do vinil são apreciadores do rock. “Muito pelo contrário. Temos colecionadores de brasilidades, MPB, jazz, blues, de vários estilos, mas o rock é o carro-chefe, que reúne os novos consumidores e também antigos desfrutadores.”

Sobre o tema, Pachá reforça que o cenário do vinil em Catanduva é bem ativo. “Conheço vários colecionadores, temos grupos de amigos que estão sempre trocando informações e até mesmo o material em si, além dos amigos que têm lojas físicas que trabalham com vendas e trocas.”

FEIRA DE VINIS

Neste domingo, os amantes do formato estiveram reunidos na 4ª Feira de Vinis de Catanduva, na rua Ribeirão Preto, 350, Vila Rodrigues, com participação de vários expositores e apresentação da banda Whatever Blues. A realização foi do grupo 'Vinil Catanduva - Sempre um Clássico', com entrada de graça.