Primeira Impressão, que arrematou 400 prêmios em festivais, completaria 15 anos este mês

Diretor e coreógrafo do grupo, Cristiano Santillo, relembra trajetória vitoriosa

Primeira Impressão, que arrematou 400 prêmios em festivais, completaria 15 anos este mês

Foto: ARQUIVO PESSOAL - Santillo conheceu Catanduva em 2006, durante um passeio com a família

Guilheme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 31/10/2021

Quando o bailarino Cristiano Santillo chegou a Catanduva, em 2006, ele já havia conhecido os principais palcos de dança do país. Na Cidade Feitiço, ele criou o grupo de dança de rua Primeira Impressão e fez história ao colecionar mais prêmios do que qualquer um poderia imaginar. O projeto colocou o 'street dance' em evidência e alimentou sonhos de centenas de jovens.

A trajetória de Santillo começou em 1999 no grupo de dança de rua de Ribeirão Preto, sua terra natal. “Como primeira experiência, tive muita dificuldade, mas fui me dedicando a cada dia e treinando muito. No ano 2000, conheci os festivais de dança, foi paixão logo de cara e, no ano seguinte, começamos a ganhar todos os grandes festivais de dança do país”, lembra.

Em 2006, em um passeio em família, conheceu Catanduva e, de quebra, a Estação Cultura. “Vi um prédio antigo, todo reformado, lindo demais, parei o carro impressionado. Uma pessoa me explicou que ali era uma estação de trem que estava sendo transformada em espaço cultural. Meus olhos brilharam, o coração disparou, senti algo realmente forte, não sei explicar.”

De volta a Ribeirão Preto, contou à família o que havia ocorrido. Confidenciou, também, que estava sentindo que Catanduva seria o seu lugar, a transformação em suas vidas. “Em 30 minutos de conversa tomei a decisão de que iríamos para Catanduva, sem conhecer a cidade, sem emprego, com uma filhinha de 2 meses e um sentimento forte no coração”, conta.

O início não foi fácil. “É muito difícil chegar em uma cidade em que ninguém te conhece, as oportunidades são bem difíceis. Levei projeto em vários lugares, escolas de dança, escola particular, secretaria de Educação, na Divisão de Cultura da época, e nada dava certo.”

Depois de três meses sem espaço nem para treinar, ele e Paolla, sua esposa na época, conseguiram aulas no programa de Oficinas Culturais, oferecido pela Estação Cultura. Ele na dança de rua e ela no ballet. Eram apenas duas horas por semana, mas foi a oportunidade que ele precisava para mostrar seu trabalho. Assim conheceu pessoas e contou suas histórias na dança.

Quando teve a oportunidade, fez a proposta: “Vamos montar um grupo de dança na cidade e vocês vão viver suas próprias histórias. Eu sei o caminho certo e posso direcioná-los. Começamos com cinco bailarinos. Ensaiamos muito. Peguei figurinos emprestados, sapatilhas que nem serviam direito e o trabalho foi ganhando formato”, relata.

Quando Santillo soube que haveria o Festival de Dança de Catanduva, correu para inscrever seu grupo, mas o prazo havia terminado um dia antes. Com ajuda de um vereador, conseguiu espaço para encerrar a noite. Era 28 de outubro de 2006, há exatos 15 anos.

“Foi perfeito. As famílias dos bailarinos estavam na plateia, ninguém conhecia o grupo, ali o Primeira Impressão foi apresentado a Catanduva com a coreografia Simplesmente Carlitos”, conta Santillo, fazendo menção ao primeiro trabalho coreográfico do grupo, que homenageou Charles Chaplin. A produção conquistaria a cidade e premiações em festivais por todo o país.

“Minha vida se transformou da noite para o dia. Fomos aplaudidos de pé. Todos queriam saber de onde era o grupo, quem era o professor. Quando falávamos que éramos da cidade, ninguém acreditava. Foi incrível e inesquecível. No mesmo dia comecei a receber convites para dar aulas, inclusive de lugares que procurei quando cheguei a Catanduva.”

O grupo começou a crescer, as aulas das oficinas culturais lotaram, muitos alunos querendo fazer parte do Primeira Impressão. Naquela altura, o grupo de dança alcançou mais de 30 integrantes, com muitos jovens esperando por uma oportunidade.

“Fazer parte do projeto não era fácil. Ensaios de segunda a segunda, disciplina total, era muita dedicação. Eu sempre falava, ninguém fazia parte do Primeira Impressão porque eu era legal, eu não era mesmo. Cobrava muito do grupo. Horário, nota na escola, cabelo arrumado, uniforme. O intuito ali não era formar bailarinos, era formar cidadãos de respeito para a sociedade. Uma frase que marcou essa fase foi “Eu não preciso de um grupo de grandes bailarinos. Eu preciso de um grupo de grandes pessoas”. E isso certamente tivemos ali”, afirma Santillo.

Com Simplesmente Carlitos, o Primeira Impressão conquistou 33 prêmios logo no primeiro ano e colocou o nome de Catanduva nos grandes festivais de dança do país. O segundo trabalho foi a coreografia Vampiros, outro sucesso nos festivais, chegando a palcos internacionais – com participação, pela primeira vez, no Festival de Dança do Mercosul, na Argentina.

O trabalho seguinte chamou-se Tempo, que também acumulou conquistas e trouxe para Catanduva o prêmio de Melhor Grupo de Dança do Mercosul.

“Os nomes do Primeira Impressão e de Catanduva começaram a figurar frequentemente nos grandes festivais de dança. Conquistamos dois prêmios no Festival de Dança de Joinville, o maior do mundo, 11 prêmios no Festival de Dança do Mercosul e muitas outras coreografias e prêmios vieram na sequência, Charme, Anjos da Noite – que virou um espetáculo apresentado em várias cidades através do Circuito Cultural Paulista, Ações e Reações, No Swing do Street, Os Solos Festa, Pinóquio, Sem Controle, Consonância, e a última coreografia, Filhos do Gueto”, detalha.

Ao todo, todos esses trabalhos do Primeira Impressão, liderado por Cristiano Santillo, arremataram para Catanduva mais de 400 prêmios em festivais nacionais e internacionais de dança, conquistando, sobretudo, reconhecimento e respeito para os artistas da cidade.

Entrelaçadas à história do grupo, há muitas outras histórias que surgiram a partir do sonho de Santillo e dos bailarinos do Primeira Impressão. “A dança começou a fazer parte da vida da cidade”, diz. O projeto de dança foi levado para todas as escolas municipais, surgiram trabalhos com a terceira idade e com pessoas com deficiência. A partir daí, os novos grupos marcaram presença em todos os eventos comemorativos da cidade, como desfiles de aniversário, inaugurações e até mesmo o Carnaval. “Catanduva respirava dança”, enaltece o bailarino.

SERRA NEGRA E PANDEMIA

O Primeira Impressão encerrou suas atividades em dezembro de 2016. Santillo retornou a Ribeirão Preto e criou o projeto Primeiros Passos para dar aulas de dança gratuitas para crianças, com apoio de amigos que acreditam no poder de transformação de pessoas através da arte. “Decidi não fazer mais trabalhos de companhia de dança, queria só direcionar crianças para a dança”.

Em 2018, porém, o projeto Primeiros Passos foi para a cidade de Serra Negra e teve ótima aceitação. “Aí, lembra aquela história do Primeira Impressão? Começaram a aparecer pessoas com os olhos brilhando, com sonhos, e aí isso mexeu novamente comigo. Pensei assim, eu sei o que fazer para direcioná-los. Assim surgiu a Companhia Serrana de Dança”, comenta.

A história se repetiu. Com cinco bailarinos sonhadores e em cinco meses de trabalho, o novo grupo colocou duas coreografias no maior festival de dança do mundo, em Joinville, começou a ganhar prêmios nos palcos do país até que chegou a pandemia do novo coronavírus.

“Ficamos um ano parados, fui infectado pela Covid, foi a pior coisa que aconteceu na minha vida. Tive lesão cerebral, perdi parte dos movimentos do braço e da perna esquerda, dificuldade na fala e concentração, tudo que uso para trabalhar. Foram meses de muita luta, fé e vontade de viver. Estou cada dia melhor, voltei a treinar com o grupo e em três meses estávamos novamente nos palcos. Já são 11 prêmios em seis festivais”, descreve Santillo.

No último dia 20 de outubro, o grupo foi convidado para representar o Brasil no Universal Dance – Campeonato Sul Americano de Dança. A apresentação será no dia 28 de novembro.

“E assim vou seguindo a minha vida, sabendo que um dia estaremos de volta a Catanduva e daremos continuidade nessa linda história. Através da arte e da cultura podemos transformar o mundo. E, confesso, eu amarei Catanduva eternamente.”