Catanduvense ensina Libras e vivencia dia a dia dos surdos há quase 20 anos

Zenaide começou sua trajetória orientando famílias com a Língua de Sinais

Catanduvense ensina Libras e vivencia dia a dia dos surdos há quase 20 anos

Foto: ARQUIVO PESSOAL - Zenaide é Interlocutora da Comunicação em Libras na Câmara de Guariba

Guilherme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 05/12/2021

Há quase duas décadas e apenas um ano depois que a Libras – Língua Brasileira de Sinais foi reconhecida, em 2002, como meio legal de comunicação e expressão, a catanduvense Zenaide Perpétua Carvalho Francisco, a Nayde, já mergulhava em um curso voltado ao comportamento moral e cívico dos surdos. Passou a entrar nas famílias para orientá-los, utilizando a Língua de Sinais.

“Nosso interesse era e sempre foi orientar as famílias e ser ponte acessível dessa lacuna, um abismo enorme que há até mesmo dentro de casa”, comenta a educadora.

Ela diz que orientações rotineiras, que parecem simples para qualquer pessoa, são difíceis de serem explicadas à pessoa surda. “Por exemplo, não pode fumar. Mas por que não? É preciso explicar na Libras as razões e o porquê.”

O primeiro contato de Zenaide com a Libras foi através do movimento religioso Testemunhas de Jeová, que ensinam a técnica desde 1982. A partir disso, ela se aprofundou em cursos, em Ribeirão Preto, na escola Bloco de Notas e no Grupo SCIO – voltado à formação de profissionais para atuar com pessoas com deficiência e transtornos de aprendizagem.

Entre suas lembranças está Suellen Cristina, moradora do Solo Sagrado. “Conheci a Suellen por meio de um censo pormenorizado realizado por nosso grupo, íamos de casa em casa, bairro em bairro, andando até 7 km por dia, tudo pra levantar informações e endereços dos surdos. Foi assim que conheci as famílias, seus medos, problemas, desafios e minha maior alegria.”

Depois de alguns anos, alguém sugeriu que Zenaide abrisse um espaço para oferecer cursos de Libras, deixando de atuar apenas de forma voluntária como fazia até ali. Assim, ela montou aulas e lançou um programa de cursos livres focados no mercado de trabalho.

“Acompanhei de perto a vida dos surdos. Esse amor que tenho pela Libras transcende tudo, inclusive salário. Chega do surdo ficar escrevendo bilhetinho pra gente entender. Nós é que temos que aprender o idioma dele”, frisa Zenaide.

De 2003 a 2008, a profissional atuou em Catanduva, depois se casou e foi para Guariba-SP, dando continuidade ao seu trabalho com Libras. Chegou a ensinar alunos e professores da rede municipal e atuar no Centro de Formação de Condutores. É Interlocutora da Comunicação em Libras na Câmara de Vereadores de Guariba desde 2017, iniciando a segunda legislatura.

Sua empresa, a LCD - Libras Comunicação Dinâmica treina pessoas em cursos de Libras focados no mercado de trabalho. O básico intensivo, com curta duração, é direcionado para a área de atuação do aluno. Já os cursos intermediário e avançado são de longa duração.

Na equipe, há professores ouvintes e surdos. Mais recentemente, a empresa ampliou o leque e passou a oferecer treinamentos em todas as áreas de Educação Especial. Nasceu a LCD - Centro Sócio Educacional de Treinamento e Desenvolvimento de Pessoal, com atuação em Catanduva e Guariba.

Recentemente, devido à pandemia, decidiu ficar próximo de sua mãe e direcionou seus projetos a Catanduva. Nessa nova etapa, já são vários trabalhos importantes, como os feitos para o Ame e a Unifipa, além de aulas particulares e interpretação em casamentos e eventos.

“Faço questão de manter o convívio diário com os surdos. Não é só na hora de interpretar, falar tchau e ir embora. Eu realmente convivo com eles, na casa deles e eles na minha. Participo do lazer com os surdos, jogos e entretenimento. Também tive experiências inesquecíveis na alfabetização de surdos que não sabiam ler e escrever”, relembra.

A interlocutora de Libras diz que, embora a língua de sinais seja tão difundida e a Inclusão Social tão falada, as melhorias são lentas. “Ainda está cambaleando. Esbarramos na burocracia e preenchimento de tantos papéis. Enquanto isso, o surdo que tem apenas a visão para se comunicar, perde. Acredita-se que eles entendam quando se escreve no famoso "bilhetim", mas ele tem língua própria. É preciso usar, falar, difundir e respeitar. Hoje, os surdos têm que se adaptar à nós. Porque não fazermos o mesmo?”, questiona Zenaide.

Ela afirma que, em Catanduva, falta muito a fazer. “Ainda tento entender o que está acontecendo em Catanduva. Cheguei de volta depois de 12 anos e ainda falta muito.”

Para mudar esse cenário, Zenaide diz que é preciso união e ousadia. “Precisamos nos unir pra fazer alguma coisa, envolver o maior número de instituições, órgãos públicos e privados. Dentro de cada empresa, ter uma pessoa que conheça a Libras. Transformar isso em uma causa importante. A Libras deve ser incluída no currículo profissional, é isso que defendo. Na disputa por uma vaga de emprego, se eu tiver Libras, já serei a primeira na escolha. Estou aqui pra tentar conscientizar a população. Meu papel é disseminar a Libras. Minhas mãos falam.”

SERVIÇO

Para mais informações sobre Libras e o trabalho desenvolvido pela interlocutora de Libras, os contatos são (17) 3151-1825 e 99639-9123 ou na rua Uchoa 333, no Jardim Amêndola. As aulas da LCD Comunicações são ministradas no prédio da CNA, na rua Bahia, 6, no Centro.