Artista catanduvense exporta talento com performances e exposições pelo mundo todo

Premiado, Tales Frey tem o corpo como elemento central de seus trabalhos

Artista catanduvense exporta talento com performances e exposições pelo mundo todo

Foto: DIVULGAÇÃO - Para Tales, seu trabalho é arte em movimento

Guilherme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 18/10/2021

Não é simples compreender a profundidade da arte produzida por Tales Frey. Artista transdisciplinar, o catanduvense levou seu olhar e talento para a Europa. Tem currículo invejável na área acadêmica e, sobretudo, no circuito das artes, com obras amparadas tanto pelas artes visuais como cênicas. Sua trajetória é tão intensa quanto suas criações.

Apresentou trabalhos artísticos, a maioria com intervenções ao vivo, na Argentina, Canadá, China, Cuba, Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Malásia, Portugal, Sérvia, Suécia, Tailândia, Bélgica, Islândia, Nova Zelândia, México, Grécia, Alemanha, entre outros.

Em suas performances, o corpo é elemento central. O motivo? Tales relembra a influência materna. Sua mãe, Silvana Frey, é professora de Educação Física e foi proprietária da academia de ginástica Corpus, em Catanduva.

“A atenção sobre tudo o que diz respeito ao corpo na minha prática artística veio dela sem nenhuma dúvida. Eu via de perto todo o funcionamento do ambiente voltado para as atividades físicas e prestava atenção em tudo daquele contexto.”

Além da academia, Silvana criou um grupo de dança em que as duas irmãs de Tales participavam. “Como espectador, eu sempre acompanhava tudo e, como filho e irmão caçula, eu estava sempre com as mulheres da casa assistindo a alguns ensaios, acompanhando os processos desde os desenhos de figurinos em papéis, testes de tecidos, até a escolha de músicas”, avalia.

A figura do avô também deixou marcas na personalidade do artista. Ele era advogado, político, professor de história e geografia, tocava violino, escrevia e recitava poemas em saraus.

“Eu amava escutar o meu avô; ele era extremamente erudito e tinha interesse por assuntos variados e, no dia em que verbalizei para ele que eu queria fazer teatro, ele imediatamente me incentivou a entrar em algum grupo local e, inclusive, indicou algumas faculdades de artes cênicas.”

Os primeiros passos no mundo artístico foram nas aulas de teatro, entre 1993 e 2002, ainda no período escolar. “Lembro que eu ficava lendo texto dramático nas aulas de química e matemática. Li toda a coleção de Nelson Rodrigues de textos dramáticos assim, na escola”, confidencia.

Em 2003, iniciou Direção Teatral na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, ao mesmo tempo, o curso de Indumentária.

“Foi lá que eu entendi que eu estava mais atraído pela performance, mas o que me dava algum sustento era o teatro. Então fui experimentando os trabalhos de performance paralelamente ao teatro”, resume o artista, citando trabalhos nos bastidores, com adereço cênico para o Miguel Falabella e Cláudio Tovar no Rio de Janeiro e, em cena, com o Antonio Abujamra, sendo ator e integrante na equipe de assistência de direção.

VIDA EM PORTUGAL

Depois Tales mudou-se para Portugal e, vivendo no Porto, passou a fazer performances em espaços urbanos, abertos. “No final isso virou meu trabalho. A performance, não só em espaço urbano, e também os registros e vestígios. Porque aí vieram indumentos, trajes, objetos e adereços, que acabam se tornando também objetos expositivos, quase escultóricos.”

O que Tales explica, com termos do métier, é que aos poucos ele percebeu que os registros de suas performances, inicialmente materiais de análise, e também os objetivos utilizados, poderiam ganhar autonomia como peças expositivas, independentes da performance.

Na área acadêmica, concluiu o mestrado em Teoria e Crítica da Arte na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e o doutorado em Estudos Teatrais e Performativos pela Universidade de Coimbra. Atualmente, integra o programa de pós-doutoramento do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, instituição para a qual foi convidado para integrar como Investigador Sênior no Grupo de Investigação em Estudos Artísticos.

“A partir daí, direcionei todo o meu entusiasmo para a minha própria prática em arte e, assim, enxerguei de vez como a performance é o meio de junção do meu interesse pelas artes cênicas e visuais e, mesmo quando não se trata de uma criação para acontecer ao vivo, há sempre ou quase sempre a noção de performatividade”, diz, em autoanálise.

Com sua obra, Tales toca em questões políticas e sociais, ainda que não possibilite uma leitura tão evidente – apesar de as provocações estarem ali, explícitas ou implícitas a depender de quem olha. “Sendo a performance uma expressão em que o corpo é sujeito e é também objeto da obra, ela é um meio bastante eficaz para refletirmos sobre as transformações sociais.”

O QUE VEM POR AÍ

Desta semana até 2023, Tales Frey tem agenda cheia e trabalhos ao redor do mundo, a começar pela 11ª Under The Subway Video Art Night em Nova Iorque e em Valência na Espanha; Galeria Shame em Bruxelas, Bélgica; Performance Arcade, na Nova Zelândia; Akureyri Art Museum, na Islândia; Museu da República, no Rio de Janeiro; Exposição "Be-Ing" no l'Angle nos Alpes Franceses; Teatro Municipal do Porto.

ARTE EM MOVIMENTO E PÓS-MIDIÁTICA

A relação de Tales com a arte é tão intrínseca que, desde 2013, ele realiza seus aniversários com performances. “Inicialmente, como rituais de passagem (que de fato são), mas são também rituais estéticos, artísticos quando apresentados como performances públicas e, ao serem repetidos, confirma-se como rituais artísticos. Fiz o meu casamento com Hilda também como uma performance, transformando o rito de passagem em arte. Acho muito interessante como o ritual tem um poder de eficácia numa transformação, porque a mudança é irrevogável.”

Sobre seu trabalho, Tales diz que é uma arte em movimento. “Embora eu não tenha a intenção de encaixar o meu trabalho de performance ao vivo em uma categoria específica, compreendo em parte como uma arte plástica em movimento e até mesmo como uma espécie de escultura cinética, uma vez que utilizo o corpo humano como suporte para criar relevos, definir formas e espaços, proporcionando tridimensionalidade a cada trabalho produzido, negando muitas vezes as relações com a frontalidade clássica das artes cênicas e com a matéria inerte das artes plásticas.”

“A performance é o meio de expressão mais recorrente nas minhas proposições, mas tenho grande empenho em estabelecer a noção de performatividade em diversos meios, por exemplo, pelo recurso do vídeo, da fotografia, do objeto, da instalação, entre outros. Suponho que cada expressão proposta por mim esteja sempre integrada com outras várias, sem muros, sem restrições categóricas e ortodoxas”, completa, citando ainda a condição pós-midiática de sua produção.