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Ser professor é fazer os alunos enxergarem muito além dos muros de uma escola, diz Cristina Ganga

Educadora que abria garagem para alfabetizar crianças conta sua trajetória

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Foto: DIVULGAÇÃO - Cristina é servidora pública estadual, seguiu sua trajetória no Oliveira Barreto, atuando para a Prefeitura a partir da municipalização

Guilherme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 15/10/2021

Quando aquela jovem abria a garagem de sua casa na rua Araçatuba, aos sábados, as crianças entravam contentes, pois sabiam que era hora do aprendizado: conheceriam vogais, consoantes, a separação de sílabas e teriam o carinho de quem ama ensinar. Foi essa uma das primeiras atitudes da educadora Cristina Della Matta Ganga, 47, no início de sua trajetória profissional.

Formada em 1993, Cristina começou a lecionar no ano seguinte na rede particular e como professora eventual na escola estadual Joaquim Alves Figueiredo, bem perto de sua casa. Em outubro de 1995, assumiu sua primeira sala de aula. Quando houve a inversão dos prédios do Figueiredo com a escola municipal José D’Oliveira Barreto, em 1996, iniciou sua jornada na área de Educação Especial.

“Foram 10 anos com a turma de Educação Especial no Oliveira Barreto, onde pude me realizar como pessoa e profissional. Conheci outro lado da vida, pude transformar a vida de muitas crianças e eles conseguiram transformar a minha vida. Eu era muito jovem, mas amadureci e aprendi muito com o que eles me forneceram de vivências e sentimentos”, confidencia.

Servidora pública estadual, seguiu sua trajetória no Oliveira Barreto, atuando para a Prefeitura a partir da municipalização. “Eu amo dar aula, amo estar no Oliveira Barreto, para estar aqui abri mão de muitas coisas. Abri mão de propostas de emprego onde eu ganharia muito mais, mas amo essa escola, em cada parede correm a minha alegria, o meu suor e o meu sangue”.

“Se eu tivesse que voltar ao passado, não mudaria nada, porque cada tijolinho daqui é a minha vida. Digo sempre aos meus filhos que, às vezes, nós fazemos escolhas e nem sempre seremos valorizados, mas o importante é dar ao outro aquilo que você tem de melhor e eu sempre dei e dou aos meus alunos o que eles precisam, de corpo e alma”, completa.

Mesmo com tantos anos de dedicação, Cristina tem algumas passagens vivas em sua memória. Uma delas é o programa Escola da Família. “Montei uma sala de alfabetização onde eu recebia alunos da cidade inteira que queriam se alfabetizar, crianças que muitas vezes estavam fora da escola, pessoas mais velhas, onde eu pude ajudar no processo de alfabetização”, conta.

Também foi ela a responsável por um projeto de dança no contraturno escolar.

“Sempre gostei muito de dançar, então criei o projeto e montei uma coreografia. Muitas escolas contrataram profissionais de dança para dar aula e eu, com meu esforço, consegui com aquelas crianças ganhar o primeiro lugar em Catanduva e o segundo lugar no festival estadual em Barretos”.

O resultado alcançado no IDEB também é motivo de orgulho. “O primeiro vai ser um IDEB inesquecível na minha vida, porque eu nunca vi tantas crianças juntas com tanta inteligência, um vasto potencial, pude ficar com essa classe durante três anos e vi todo o progresso desde a primeira fase do letramento até quando pude prepará-los para seguir no Ensino Fundamental”.

Cristina conta que os alunos conquistaram o primeiro lugar na prova e, hoje, a maioria está bem encaminhado na vida, fazendo faculdade.

“Digo sempre que aquele primeiro IDEB será meu eterno presente. Pelo esforço, pela transformação deles, pelo verdadeiro aprendizado que eles puderam ter naquele ciclo”, declara.

ALFABETIZAÇÃO

A trajetória de Cristina é marcada pelo amor à alfabetização. É o que a move a pisar na sala de aula a cada dia. “Faço de tudo para que um aluno consiga se alfabetizar. Não admito que um aluno passe por mim e não se alfabetize. Não importa se ele está no 5º ano, se chegou com 14 anos e não sabe ler e escrever, vou fazer de tudo para ensinar”, afirma.

Durante a pandemia, ela alfabetizou uma aluna mesmo com aulas a distância. “No começo, ela chegou no particular e falou: não me pergunte nada na aula online, porque eu tenho vergonha, não sei ler e escrever. Falei que ela não tinha que ter vergonha, porque eu iria fazer de tudo para que pudesse aprender, mas que ela tinha que estar disposta”, conta orgulhosa. “Consegui alfabetizá-la na aula online. Terminava a aula e ficávamos um pouco mais. Quando vi, ela já estava lendo. Ela é minha aluna e hoje ela já está lendo, não é 100%, mas já está conseguindo acompanhar a sala.”

“É isso que o professor tem que ter em mente. Não importa se ele tem 1 ano de profissão, 5, 10, 20 ou 30. Quando ele adentra o ambiente escolar, ele tem que fazer de tudo por aqueles alunos para que eles realmente consigam aprender. Não tem que se preocupar com números, com notas, ele tem que se preocupar com o que ele está deixando para aquele aluno.”

VALORES

Sobre o Dia do Professor, a mestra menciona valores e ser exemplo. “Ser professor é ir além dos muros de uma escola, é dar aos alunos todos os procedimentos, os recursos, fazer com que eles possam enxergar muito além dos muros de uma escola, é transformar essas crianças interiormente, é desenvolver saberes e construir juntos, desenvolver habilidades e competências, mas acima de tudo desenvolver valores. Nós só conseguimos desenvolver valores quando somos exemplos. O professor, acima de tudo, é o exemplo de muitos e muitos alunos”.

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A DIFÍCIL MISSÃO DE COMEÇAR A DAR AULAS EM MEIO À PANDEMIA

Guilherme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 15/10/2021

Gabriel Luiz Pereira dos Santos, formado em Pedagogia pela Unifipa em 2018, é representante da nova geração de educadores. Sua primeira experiência foi em 2019, com aulas de apoio de matemática, leitura e português no Oliveira Barreto. Agora, em 2021, novamente aprovado no processo seletivo, já teve pela frente a difícil missão de dar aulas em meio à pandemia.

“Em 2019, a equipe da escola me acolheu super bem, por ser o meu 1° ano eu estava muito inseguro e com medo, mas com o apoio de toda equipe foi um ano maravilhoso e de muito aprendizado. Neste ano de 2021, tive o prazer de retornar à escola. Pra quem está iniciando agora em meio a essa turbulência, é um pouco complicado, pois falta o contato com as experiências dos alunos, pra ter a noção de como eles estão aprendendo e assimilando o conteúdo”, avalia.

De olho no futuro, ele fala em amor e lembra que os alunos precisarão recuperar o tempo perdido. “Ser professor é muito gratificante, você se torna amigo das crianças e quando eles aprendem você consegue enxergar no olho deles todo o amor e a admiração que têm por você. Daqui pra frente, temos uma missão difícil, pois todo esse tempo foi muito prejudicial pra eles, o ritmo de aprendizagem vai ser diferente e as experiências também vão ser outras”.

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