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"As bandeiras desta luta são a valorização e o reconhecimento do legado que o negro trouxe"

Líder do movimento negro, Regina Aparecida da Silva, será homenageada pela Câmara

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Foto: ARQUIVO PESSOAL - Educadora coordenou Pastoral Afro e foi cofundadora do Movimento Negro de Catanduva; é considerada um divisor de águas para a militância

Guilherme Gandini
Editor-Chefe
Publicado em 21/11/2021

A luta contra o racismo e a discriminação faz parte da trajetória de vida da educadora Regina Aparecida da Silva. Como ela mesma diz, “como acontece com a maioria dos negros, o preconceito é uma constante”. Nascida na zona rural de Paraíso, foi coordenadora da Pastoral Afro de Catanduva e uma das fundadoras do Movimento Negro de Catanduva - MNC.

“O racismo, mesmo que velado ou explícito, fez parte da minha trajetória. Inúmeras vezes fui preterida em situações como escolhas, na participação em eventos sociais e, sutilmente, quando adentro em certos ambientes majoritariamente brancos, um olhar acusatório a mim é dirigido como que dizendo que ali não é o meu lugar”, conta Regina.

Questionada sobre seu primeiro envolvimento em movimentos sociais, ela cita sua própria profissão. “Acredito ser ativista desde que, pela profissão, pude ajudar a formar consciências. Além disso, fui coordenadora da Pastoral Afro de Catanduva de 2006 a 2009, onde pudemos trabalhar a questão do negro de maneira mais ampla e a valorização da pessoa humana”.

Depois, Regina participou como cofundadora do MNC, com intuito de compor um espaço de discussão. “Para travarmos, em conjunto, o combate ao racismo, à discriminação e ao preconceito, almejando uma sociedade mais equânime”, diz ela, e completa: “Sentindo-se dispersos, sem interlocução com a sociedade, o movimento adveio da necessidade de se ter em pauta a realidade da população negra e as mazelas sofridas. Era o momento em que os grupos minorizados se organizavam em busca de espaço e respeito.”

De lá pra cá, Regina afirma que o município teve avanços sociais. “Pode-se dizer que houve avanços na área social de Catanduva, pois agora se deu mais visibilidade para a questão do negro, seus anseios e necessidades. Isto é importante para a implementação de políticas públicas que contemplem a população afrodescendente.”

Entre as ações realizadas visando à conscientização e o combate ao racismo, Regina relembra quando, na Pastoral Afro, o MNC colaborou com abaixo-assinado de autoria do senador Paulo Paim (PT), que percorreu todo o Brasil, para que voltasse em discussão o projeto para aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. “Hoje é o que salvaguarda nossos direitos conquistados.”

Hoje, a ativista desenvolve trabalho regional, sobretudo em Paraíso e Palmares Paulista, com participação em projetos, atividades e na discussão de ideias e ações.

Regina fala ainda sobre as bandeiras da luta do movimento negro nos próximos anos. “São, continuamente, pelo respeito, valorização e reconhecimento do vasto legado que o negro trouxe e que tanto contribuiu para a formação do povo brasileiro. Que não sejam negados a ninguém os direitos fundamentais para sua ampla dignidade. Implementar políticas públicas que evoluam para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária”, resume.

CONSCIÊNCIA NEGRA

O Dia da Consciência Negra, celebrado ontem, 20 de novembro, é, segundo Regina, momento propício para a reflexão conjunta de toda a sociedade. Ainda, remete a Zumbi, o grande líder do quilombo dos Palmares e que representa a luta pela liberdade de um povo.

“Poder discutir com a sociedade como um todo é necessário, pois, somente pela conscientização poderemos mudar este quadro e construirmos uma sociedade melhor, com pessoas melhores. Zumbi tombou pleiteando o ideal de liberdade, mas este ideal continua em nós”, assegura.

Ativista Receberá Medalha Zumbi dos Palmares

As lutas e a trajetória da professora Regina Aparecida da Silva motivaram a vereadora Taise Braz (PT) a homenageá-la com a Medalha Zumbi dos Palmares. A honraria será concedida pela Câmara de Catanduva, após aprovação de todos os vereadores. A cerimônia será realizada em sessão solene na próxima quinta-feira, dia 25 de novembro, às 18 horas.

A Medalha Zumbi dos Palmares, criada pela Câmara em 2008, foi concedida em 2013 ao ex-ministro Joaquim Barbosa, a partir de projeto do vereador Luís Pereira (PSDB). Como o magistrado não recebeu o prêmio, a homenagem a Regina será a primeira condecoração efetivamente entregue pelo Legislativo.

“A escolha da Regina foi baseada na trajetória dela, não só de vida, mas também da militância, pela enorme contribuição que ela teve dentro da sociedade catanduvense, falando da pauta preta, da urgência de trazer essas questões para reflexão, para mudança de comportamento, para ação do poder público para que políticas públicas fossem criadas”, afirmou Taise.

Na visão da parlamentar, que é a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Câmara local, a Regina teve um papel de divisor de águas na militância. “Onde ela está ela consegue criar essa consciência, trazer esse debate de uma forma consciente para todos os públicos. Regina respira militância, ares de dias melhores, e usa o engajamento para ter esse fôlego”.

“Quando em diálogo com o Movimento Negro, foi unanimidade que ela fosse a homenageada e, para mim, em particular, é um momento muito especial. Ser uma mulher preta dentro do Legislativo podendo entregar uma honraria a outra mulher preta, é algo muito significativo. Vai ser um momento de muita emoção e muita gratidão, porque Regina também vai estar representando cada pessoa preta que veio antes de nós, que não tiveram o devido reconhecimento. Ela representa muita gente e muita coisa”, declara Taise.

Homenageada, Regina considera a conquista imensurável e indescritível. “A eleição da vereadora Taise Braz, primeira negra a ocupar uma cadeira no Legislativo, é uma honra termos uma edil deste porte, consciente de sua representatividade e que trabalha e trabalhará incluindo em seus projetos os anseios da população negra. Sinto-me muito honrada e este ato incentiva a todos que estão na luta que Zumbi deixou para que prosseguíssemos.”